Deitado sob a manta gasta
Pelo tempo de bilhões de anos
Pela mão pesada de um algoz ruidoso
Cai-lhe uma lágrima sombria
Que escorre pelo canto
E corrói o caminho feito ácido sulfúrico
A tosse é igualmente sombria
Faz brilhar o ar que nem poeira de asfalto
Uma asma rouca e ressequida
O sangue azul não é azul como outrora
Cintila denso por entre partículas mortas
Do meio dele brotam espumas
E odores fétidos
Os cabelos eram fartos e encaracolados
Verdes e dourados
Tosados pela mão pesada
Não passam agora de tocos podres
Em couro infértil
O algoz não baixa guarda
Seu chicote é cada vez mais veloz
Sua voz, mais estridente
Seu olhar, mais ambicioso
Na manta gasta, o mundo se esquiva
Prepara-se para morrer
E levar o algoz junto dele
Assim sua vingança será
Um buraco negro
Uma língua de fogo apocalíptica
Talvez uma explosão de poeira tóxica
Uma fúria silenciosa que calará a humanidade ruidosa
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